Crianças, educação em casa e pandemia

Estamos passando por mais um ano pandêmico com restrições de socializações. E são as nossas crianças que mais estão sofrendo com a falta de convívio com outras crianças e familiares. Principalmente para as crianças que dependem das escolas públicas. A falta de um plano estratégico e os devidos cuidados necessários implica diretamente na educação pública que diante desta pandemia está sofrendo total descaso do governo.

Muitas famílias estão se driblando para conseguir trabalhar e manter os filhos em casa, já que as escolas não estão funcionando e muitas sem condições de funcionar diante desta pandemia pelos motivos ditos acima.

Muitas crianças estão tendo seus processos de aprendizagens e socializações totalmente interrompidos durante esta pandemia, que vem acentuando ainda mais as diferenças sociais.

As questões de gênero também estão mais acentuadas durante a pandemia, refletindo diretamente nas casas. Em muitas famílias, o pai ou mãe foram demitidos. Na maioria das vezes, infelizmente, são as mães que são demitidas e se ocupam inteiramente da educação dos filhos e das tarefas domésticas. As mães estão cansadas, exaustas e sobrecarregadas. Se a maternidade já é solitária, com a pandemia, ela se torna um deserto e muitas mães estão cactos.

Conversamos com a Gabriela Morais, professora Waldorf, atriz, percussionista, mãe de três crianças. Gabriela e seu companheiro Gabriel e seus três filhos moram na cidade de Antônio Carlos, uma cidade semi-rural do estado de Santa Catarina.

Gabriela é carioca e Gabriel é gaúcho. Vieram com seus filhos pra Florianópolis há uns anos atrás e no início do ano de 2020 se mudaram para Antônio Carlos.

No primeiro ano da pandemia, em agosto de 2020, Gabriela foi demitida da escola no qual ela estava vinculada.

Desempregada e os filhos sem escola, Gabriela consequentemente assumiu a função pedagógica com seus filhos. Como professora e artista, Gabriela se dedica muito a educação de seus filhos, seguindo os conteúdos escolares, porém ela traz todo seu conhecimento e habilidades para inovar com os seus filhos. Assim, Gabriela também mantém seu desenvolvimento enquanto educadora e artista.

A super convivência trouxe a tona conflitos familiares, mas com muito diálogo, paciência e amor, estão passando por essa longa fase, que também está trazendo muito aprendizados e fortalecendo os laços familiares.

Seu companheiro, Gabriel, trabalha fora e no momento seu trabalho é a principal fonte de renda da casa. O pai do Gabriel, avô dos meninos, é vizinho e músico. Ajuda a família fazendo almoço e cuidando das crianças.

A seguir, confira nossa conversa com Gabriela onde ela nos conta sobre sua rotina entre seus afazeres domésticos e as atividades pedagógicas. Ao final, elas nos presenteia com um belíssimo poema de sua autoria.

AM: Atualmente, as crianças estão frequentando a escola? Conta pra gente como está sendo essa rotina escolar pandêmica.

Gabriela: Optamos por manter as crianças no sistema de ensino remoto. Elas estão matriculadas numa escola municipal e aqui na cidade somente esta unidade possui esta opção, acredito que pelo número de famílias que fizeram a mesma escolha que a nossa. De terça à sexta a escola envia as tarefas referentes a todas as matérias, 2 ou 3 por dia. A professora regente e os professores das outras matérias (Ed. Física, Artes, Inglês e Informática) preparam os conteúdos a serem enviados por uma outra professora que fica responsável por enviar e corrigir de terça a sexta todas as atividades de todas as turmas dos dois períodos da escola, através de grupos no whatsapp. Nós famílias enviamos fotos das atividades como registro do que foi feito. E é por essas fotos que a professora corrige. Quando ela encontra algum “erro” que não seja de português, envia o gabarito para que possamos nós mesmos corrigir. O que recebemos são somente as questões que xs professores criam ou indicam nas páginas dos livros que a escola disponibilizou. Sem aulas síncronas ou assíncronas. Às vezes, indicam aulas de canais do youtube criadas por professores aleatórios. 

AM: Como está sendo sua rotina pedagógica? Os responsáveis/cuidadores estão propondo e exercendo alguma atividade pedagógica com as crianças? Conte-nos sobre isso.

Gabriela: Durante a manhã, depois de termos feito as tarefas individuais e coletivas começamos com as da escola. Eu sou a auxiliar de professora, digamos assim (risos). Montei uma “sala de aula” num dos quartos do apartamento, com direito a lousa, computador, materiais e livros complementares aos estudos. Já que a escola não disponibiliza vídeo aulas (ou aulas síncronas, nem assíncronas) me senti impelida  a ser a mediadora dos conteúdos (com exceção de matemática do mais velho que tem 10 anos ou quando preciso sair de casa, daí delego ao pai). Fazemos uma roda, com um verso ou música e depois uma brincadeira de ritmo ou algo como “morto-vivo”. Crio um clima, converso, pesquisamos juntos, cantamos, assistimos aos vídeos da internet recomendados pela escola – quando considero desnecessário, pulamos essa parte. E realizamos a parte mais objetiva enviada pela escola. E muitas vezes sigo durante a tarde ainda cuidando disso porque são 3 crianças, duas no segundo ano e uma no quinto ano do ensino fundamental. Então me desdobro nas demandas das duas fases. Além das atividades enviadas pela escola, muitas vezes eu crio outras ainda. Envolvendo leituras complementares e/ou trabalhos artísticos e elementos que descubro em minhas pesquisas e vivência mesmo. 

AM: quem cuida das crianças e das tarefas domesticas?

Gabriela: Basicamente eu, a mãe. Pois, o pai trabalha fora. Mas contamos com a ajuda do avô paterno que é nosso vizinho para fazer o almoço e quando ele não pode o pai faz. As crianças estão também cada vez mais autônomas e eu delego pequenas tarefas à elas, já que considero isso parte da educação também. 

AM: como está a socialização das crianças?

Gabriela: Todos os dias depois do almoço e tarefas cumpridas elas descem para brincar na área do prédio ou no gramado que temos aqui em volta. A cidade onde moramos tem sua economia baseada fortemente na agricultura e plantação de grama. No caso, temos uma dessas plantações aqui em volta e o dono deixa as crianças brincarem ali, é bem espaçoso. Minhas crianças brincam com outras 3 que moram aqui no nosso prédio também e com mais duas vizinhas – conversamos com as famílias e até onde sabemos todxs se cuidam. No brincar andam de bicicleta, praticam brincadeiras com bola e corda, inventam situações e histórias, constroem casas, mercadinhos e salas de aula. O tempo todo de máscara e ao entrarem em casa, trocam de calçado e logo tomam banho.  

AM: Perderam alguém próximo na pandemia? como lidaram com a perda?

Gabriela: O pai do meu companheiro perdeu uma irmã durante a pandemia, mas por outra causa que não Covid-19. Foi bem duro principalmente pra ele, e claro, como somos bem próximos fizemos o que pudemos para acolhê-lo. 

AM: Passam por dificuldades financeiras? Conflitos familiares? 

Gabriela: Não passamos por dificuldades financeiras, somente precisamos segurar mais a onda. Os conflitos familiares existem. A super convivência dificulta bastante. A liberdade de certa forma restrita (principalmente pra mim, na verdade) exalta os ânimos. Tudo fica mais intenso e maçante. Medo, saudade, incerteza, sentimento de regressão. As crianças brigam entre si também, minha paciência desaparece muitas vezes. Mas tá melhorando, já consigo vislumbrar coisas boas e é claro que nossa condição privilegiada ajuda muito.

AM: Como as crianças brincam e como ocupam o tempo?

Gabriela: Quando não estão fazendo as tarefas da escola e de casa ou brincando lá fora, brincam aqui dentro mesmo. Acho que os livros, o desenho e o Lego são suas “ocupações” favoritas de dentro. Mas inventam muitas brincadeiras também usando figurinos e tecidos que se transformam. Os menores cantam, dançam, inventam do jeito delxs músicas no teclado. O mais velho faz dobraduras e resolve e/ou nos faz charadas. Ultimamente voltei a treinar tocar alguns instrumentos de percussão e muitas vezes os vejo imitando. E, fazem uso do computador para assistirem a desenhos e séries também. 

AM: Conte-nos de sua rotina com as crianças, sobre as atividades q vocês realizam juntos.

Gabriela: Tomamos café da manhã juntxs, depois realizamos nossas tarefas pessoais como arrumar nossas camas, por exemplo. Depois as coletivas, como lavar a louça e varrer o chão. Depois nos dedicamos às tarefas da escola que muitas vezes demanda muitas horas e às vezes nos dá ideias boas para outros momentos além desse tempo. Almoçamos juntxs, cada um lava sua louça. Quando consigo, brinco com elxs lá em baixo ou me ajudam com algo como cuidar das plantas ou outra ideia que surja. Procuro trazer elementos e referências das épocas do ano, como aprendi durante meu trabalho com a pedagogia Waldorf. Por exemplo, na última páscoa, plantamos cenouras e fizemos pãezinhos para compartilhar com os vizinhos – tomando os devidos cuidados, risos. 

Também começamos a ter aulas de teclado -o mais velho e eu, com o vovô. Mas, agora esta atividade está pausada. Na hora de dormir, leio ou conto uma história ou canto músicas. Conversamos um pouco -quando não está tarde- e sempre fazemos uma oração. 

AM: Muito obrigada, Gabriela por compartilhar conosco sua rotina com sua família! É inspirador! E falando em inspiração, terminamos este papo sincero com um poema da própria:

No intento, na missão

seguindo as curvas da contra mão

sem cartilha, sem manual

imperfeito e vagaroso

trabalho diário e gradual

maternidade do peito aberto, exposto

da lupa, do telescópio, da colher de pau

do erro, do grito e do amor que pulsa sem rima

num movimento de quase onda, de ir e vir

de sal, de pele, de ossos, músculos e pêlos

enviar a mensagem, sentir de volta

passar adiante uma possibilidade de olhar

deslimites, cheiro forte, choro forte

tempero

Gabriela Morais

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