O bem viver para além da pandemia

Hoje vamos contar como uma família cearense está atravessando mais um ano de pandemia. Juliana e sua família: seu companheiro, suas filhas e bichos, vivem numa casa que foi construída antes mesmo de Serena, a filha mais velha, nascer. A casa é uma bio-construção, com jardim, árvores, plantas, flores e bichos.

A gente até esquece que está numa grande capital como Fortaleza. Neste ambiente potente esta família nos conta como estão lidando com a pandemia.

Juliana é jornalista e professora Waldorf e seu companheiro, Moacir Junior, tatuador e artista. Ambos se dividem bem nas tarefas domésticas e pedagógicas e o super convívio fortaleceu mais ainda seus laços.

Apesar de terem seus trabalhos, rendas e tempos afetados pela pandemia, a família está se saindo bem. Ao nos revelar seu cotidiano e estilo de vida, podemos perceber que uma vida pautada minimamente no Bem viver, nos traz mais sentido para nossas criações e crianças.

Ao dividirem as tarefas domésticas e pedagógicas e ambos seguirem seus trabalhos, o cuidado e contato com a terra e os animais, são práticas do Bem viver.

Acompanhar o ritmo capitalista e o ritmo das crianças é incompatível e resulta em muitos problemas e conflitos que vamos acumulando e desenvolvendo ao longo de nossa formação humana.

O relato da família de Juliana nos inspira a uma vida simples e isso perpassa por igualdade de gênero e plantar sementes. O cuidado como princípio para criação.

A seguir, um pouco da nossa conversa.

AM: Olá, por favor se apresentem!

Juliana: Somos 04 pessoas e 04 bichos de estimação. Mãe, pai, duas filhas (7 anos e 1 anos e meio), uma gata, dois cachorros e um jabuti. E muitas plantinhas. Moramos em casa. Podemos dizer que nos enquadramos na classe média. Brasileiros, cearenses. Temos e praticamos nossa espiritualidade, mas não nos limitamos a uma religião específica.

AM: Atualmente, as crianças estão frequentando a escola? Conta pra gente como está sendo essa rotina escolar pandêmica.

Juliana: Somente a filha mais velha frequenta a escola. A outra ainda é pequena e não começou a escola. A mais velha estuda em uma escola waldorf, que optou pelo ensino remoto quando do período de isolamento social. O remoto difere do online. No remoto as crianças não acessam as telas, todo o conteúdo e ritmo são passados pelo professor para os pais, e estes quem serão os educadores das crianças, a partir das orientações e acompanhamento pedagógico do professor. Mesmo quando o decreto estadual possibilitou o retorno gradual as aulas, permanecemos no ensino híbrido, uma vez que a porcentagem de alunos permitidos ao retorno não foi de 100%. Nesse contexto, a turma foi dividida em dois grupos, onde um grupo frequenta a escola dois dias e outro grupo outros dois dias. E nos demais dias da semana seguem no ensino remoto.

AM: Quem cuida das crianças e das tarefas domesticas?

Juliana: Somente nós dois. Não contamos com empregada doméstica, nem babá e nem rede de apoio. Somos apenas nós dois.

Pela manhã eu trabalho em uma escola como professora da educação infantil, e o pai cuida das crianças e dos afazeres domésticos. Faz o almoço. A tarde ele segue para trabalhar e eu cuido destas demandas. Por aqui seguimos dividindo bem as responsabilidades com as crianças e com a casa.

AM: como está a socialização das crianças?

Juliana: A sorte é que temos duas crianças em casa. Apesar da diferença de idade elas fazem companhia uma a outra. Quando houve uma certa melhoria nos índices em nossa cidade, fizemos alguns encontros com amigos da mais velha. Encontrando um amigo de cada vez, algumas vezes recebendo aqui em casa outras vezes ela indo até a casa de algum. Também fizemos algumas pequenas viagens sempre com alguma família de amiguinhos da Serena, para a Taiba, em uma casa de praia de temos. Mas no período de isolamento social mais rígido nos preservamos e é fato que o convívio social não é o mesmo de antes da pandemia.

AM: Perderam alguém próximo na pandemia? como lidaram com a perda?

Juliana: Graças a Deus não perdemos ninguém tão próximo. Conhecemos muitas pessoas que se foram, mas nenhuma do núcleo mais próximo. Do núcleo próximo tivemos muitos infectados, alguns inclusive hospitalizados por um bom tempo, mas graças a Deus se recuperaram.

AM: Passam por dificuldades financeiras? Conflitos familiares? 

Juliana: O meu companheiro é autônomo, e microempresário. Tem duas lojas de tatuagens, uma delas em um shopping. No começo da pandemia (2020) ele ficou quase três meses sem poder realizar atendimentos. Mas, na ocasião ele se reinventou, pintou duas telas as quais rifou, participou de concursos da secretaria de cultura do estado e ganhou um, e todos esses movimentos o fizeram equilibrar as contas na medida do possível, não afetando tanto diante da circunstância.

Passamos um pouco de dificuldade financeira diante da responsabilidade de possuir duas lojas. Mas, nos reinventamos e estamos conseguindo de certa forma não ser tão impactados. Também não tivemos conflitos familiares, pelo contrário, nossa relação ficou ainda mais próxima, mais fortalecida.

AM: Como as crianças brincam e como ocupam o tempo?

Juliana: Como moramos em casa as crianças não sentem tanto o efeito de isolamento rígido em casa. Sempre estamos curtindo muito o jardim, que é amplo e permite esse contato com o céu, o sol, o ar, a água e a convivência com muitos animais. Durante a pandemia, ano passado, colocamos dois balanços para as duas e estamos sempre tentando proporcionar o brincar livre.

AM: Conte-nos de sua rotina com as crianças, sobre as atividades q vocês realizam juntos.

Juliana: A mais nova tem somente 1 ano e 5 meses, portanto segue o ritmo de uma criança pequena. Pela manhã acordamos todos juntos, tomamos café da manhã e eu sigo para o trabalho na escola. Quando a mais velha pode ir, ela vai comigo. Quando não, fica em casa com o pai. Eles aproveitam o jardim até a hora da soneca da caçula. Neste momento o pai conduz uma parte da aula remota, que é pular corda e fazer o ritmo (atividade básica na pedagogia waldorf). Depois entram em casa e a mais velha vai desenhar, ou pintar, ou brincar dentro de casa. O pai vai preparar o almoço e quando a mais velha está em casa costuma ajudá-lo na cozinha. Chego em casa para o almoço e comemos juntos.

Em seguida, o pai vai trabalhar e eu sigo nos afazeres domésticos e cuidando das crianças. Realizo a outra parte do ensino remoto com a mais velha. Ambas me ajudam com as demandas da casa e ao final da tarde vamos para o jardim novamente, até a hora que as muriçocas nos espantam. Entramos em casa, tomamos banho, e em seguida jantamos juntas. Depois conto história para elas, oramos e as coloco para dormir.

Esta têm sido a rotina atualmente.

Aqui no Ceará este ano tivemos um lockdown, que começou em fevereiro ainda e há duas semanas (abril) que estamos vivenciando o retorno gradual. Neste período Serena (a mais velha) não pôde ir para a escola, pela suspensão das aulas. Mas eu, como professora do maternal não parei, pois por aqui serviço de escola para criança de 0 a 3 anos foi considerado essencial nesta período, então eu segui trabalhando.

Esta semana retornou as aulas da Serena, e ela voltou a ir.

Ano passado foi mais intenso pois, entramos em lockdown em março e só podemos retornar gradualmente em setembro. Foram quase 6 meses de isolamento rígido. Na época também eu estava no meio da minha licença maternidade, ainda vivenciando o puerpério.

AM: Muito Obrigada Juliana, por compartilhar conosco seu cotidiano tão inspirador e necessários nestes dias de hoje, como o ativista indígena Ailton Krenak nos diz, precisamos de idéias como essas para adiar o fim do mundo!

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