Uai, sua criança ainda não lê?


“A grama não cresce mais rápida se é puxada”. Começo o texto com este ditado africano para abrir reflexão sobretudo sobre a escolarização infantil. Tal ditado colhi de um texto da Sociedade Antroposófica Brasileira que com bases e evidências científicas nos responde a questão titular. Você pode acessar o artigo clicando aqui.
Quando nos perguntamos ou nos questionam se a criança ainda não lê, proponho que nossa resposta seja na direção do ainda e não da criança. O que seria este ainda? O tempo! E qual é o tempo certo? Há tempo certo?
Todos escutamos que tempo é dinheiro e que quanto antes é melhor. Ser o primeiro é sempre o melhor. Não dá pra ficar pra trás. A sociedade competitiva está produzindo a Sociedade do Cansaço como bem explica o sul-coreano Byung-Chul Han, o resultado disso é uma imensidão de adultos cansados, deprimidos, com síndromes do pânico, de ansiedade, insônia, adultos funcionais para o mercado de trabalho porém, poucos funcionais para suas relações pessoais e/ou mesmos para seus próprios propósitos, devido a falta de conexão consigo mesmo ocupados demais em produzir para o mercado (o outro).
Se fizermos uma busca rápida no google sobre a idade certa para aprender a ler, teremos uma infinidade de blogs e textos disponíveis defendendo a introdução de letras, ainda que de maneira lúdica e lenta, aos três, quatro anos de idade. Curioso que muitos destes textos afirmam que neuropediatras recomendam a introdução de letras a partir de três anos e que o quanto antes a criança ter contato com o mundo das letras, melhor. Acontece que estes textos não trazem referências. Quais neuropediatras recomendam isso? Em qual pedagogia este argumento se apoia?
Voltando para o texto da Sociedade Antroposófica Brasileira, o mais saudável para nossas crianças é elas crescerem em seu próprio tempo e ritmo. O despertar do Eu da criança está alinhado à linguagem.
Támara Chubarovsky, educadora antroposófica/Waldorf e especialista em linguagem, considera que devemos tratar a linguagem como algo inato a vida. Descobrir nossa linguagem: que sai de nossas entranhas, atravessa gargantas, molha nos olhos, rasga na boca, expressa no gesto. Através de nossa linguagem nos mostramos como nos sentimos e o que queremos dizer. Para Támara Chubarovsky, necessitamos constantemente romper com padrões e costumes que se manifestam em nossas linguagens. Támara defende que o educador-cuidador da criança precisa estar sempre trabalhando sua linguagem. Através da palavra aparece seu próprio Eu. O educador-cuidador precisa pôr energia na palavra. Encontrar seu próprio tom de verdade. Quando falamos, a vibração da nossa fala chega à criança. Támara considera que tanto gritar quanto sussurrar com a criança, um perigo para o desenvolvimento da linguagem-comunicação da mesma, o sussurro e o grito são dois extremos que expressam uma comunicação desequilibrada. Portanto, a voz do adulto e em especial ante as crianças, deve ser suave, clara, articulada.
Támara Chubarovsky criou um próprio método terapêutico e pedagógico para o desenvolvimento emocional, físico e mental através do movimento e da voz, para mais informação visite seu próprio site: http://www.vozymovimiento.com/ , neste link você encontrará diversos artigos sobre o tema, diversos vídeos de rimas e jogos para trabalhar a linguagem.
Para Támara Chubarovsky, durante o primeiro setênio é muito importante trabalharmos a simetria, pois os movimentos simétricos ajudarão as crianças a ter equilíbrio. Através de muitas rimas e movimentos com as mãos e dedos, pode-se estimular a criança, porém vale ressaltar também que no cotidiano desta criança, em sua vida familiar, é necessário trabalhar estes movimentos simétricos, ou seja, estimular sem necessariamente estimulá-la. O ato de varrer, de escrever, de amassar o pão, de torcer a roupa, sacudir, estender no varal, são movimentos simétricos que naturalmente vão estimular as crianças. Entretanto, hoje a vida moderna está sofrendo uma pobreza de movimentos, principalmente em países desenvolvidos e profundamente já arraigados na cultural industrial da utilidade. Ao invés de varrer, usa-se aspiradora. Ao invés de torcer roupa, que já sai da máquina quase seco, ao invés de lavar louça, põe na máquina. É só apertando botões. São movimentos muito econômicos e por sua vez pobres e até mesmo antiestéticos, segundo Támara Chubarovsky.
Na pedagogia Waldorf não se introduz a escrita e a leitura antes dos sete anos. Pois, se acredita que o corpo da criança ainda não está pronto para trabalhar a intelectualidade academicamente. Os três primeiros anos se forma a primeira dentição, ou seja, os dentes de leite. Logo, até aproximadamente os sete anos, se forma a segunda dentição. Os dentes são sinais externo de que as funções orgânicas do seu corpo estão desenvolvidas. Contanto, durante o primeiro setênio deve-se dar muita importância ao desenvolvimento corporal, já que o desenvolvimento cognitivo parte deste. Através do ritmo, com muitas canções, se trabalha: equilíbrio, coordenação, memória e tempo.
A música e a euritmia são atividades básicas para trabalhar a linguagem na Pedagogia Waldorf. Pois, através destas, se exercita a respiração: para falar bem é preciso respirar bem e vice-versa. Para cada 4 passos nós temos uma respiração completa. A cada 72 passos temos 18 respirações. 72 pulsações do coração por minuto e 18 respirações por minuto. A nossa respiração de um dia equivale a um dia cósmico do sol. Muitas das epopeias gregas eram contadas neste ritmo: a conexão do corpo humano com o corpo-terra, corpo-natureza, corpo-astral, corpo-cósmico.
Segundo a pedagogia Waldorf, uma criança para aprender a ler e escrever deve ter tais capacidades:
• COGNITIVAS: memória, concentração, compreensão, escuta ativa, distinção auditiva.
• EMOCIONAIS: autoconfiança, autoestima, autocontrole, segurança, linguagem, respeitar regras.
• CORPORAIS: coordenação psicomotora, lateralidade definida (há estudos que defendem que antes dos seis anos a lateralidade do ser humano não é definida, ou seja, não podemos determinar se a criança é destra, canhota ou ambidestra antes dos seis anos), estabilidade, equilíbrio, orientação espacial e geografia corporal.
Antes de introduzir a escrita, se introduz desenhos de formas. Exercitam-se traços, curvas e linhas. Depois deste processo, aos sete anos, se introduz a escrita através de contos. Narra-se uma história (com ritmo) tratando de criar imagens das letras. Exemplo: “Em um domingo pela manhã a mamãe vai com os filhinhos passear numa linda montanha. Ao chegar à montanha a mamãe prepara a merenda…”. Deve-se narrar um conto curto. No dia seguinte, a professora junto com os alunos lembra-se da história contada no dia anterior. A professora novamente narra à história e cada aluno deve desenhar a história em seu próprio livro. Vale ressaltar que na pedagogia Waldorf os alunos produzem seus próprios livros. Neste momento a professora também desenha no quadro e logo compartilham os desenhos entre si.
Através dos desenhos, a professora junto com alunos trata de identificar que letra aparece neste desenho. Neste caso, a professora desenha a letra M nas próprias curvas e traços das montanhas. Logo, os alunos identificam o M de montanha. A letra M é vista e sentida pelos alunos, que através da história cantada e das imagens, vivem e sentem a letra. Depois de desenhar a letra na montanha, as crianças vão brincar com esta letra, vão desenhar ela no ar, no corpo, identificar ela no ambiente.
Após de algum tempo vivenciando a letra, as crianças vão escrever esta letra. Escrever a letra é a última etapa do processo. Todo este processo deve ser totalmente artístico, estético, os desenhos devem ser bonitos. Na pedagogia Waldorf todo o movimento é de contrair e expandir, inspirar e respirar. De lembrar e esquecer. De dormir e acordar. Estamos sempre terminando, sempre começando, sempre em processo.
Nossas crianças não precisam se adaptar à Sociedade do Cansaço. Não precisamos “apertar sua mente” para que elas aprendam a ler e escrever o quanto antes. Precisamos de nossas crianças saudáveis, firme nas suas escolhas e propósitos, equilibradas. E essas qualidades se constroem no nosso andar, no nosso falar, no nosso pensar, num ritmo muito mais alinhado à nossa natureza do que ao ritmo da vida industrial selvagem, que muito cedo nos cansa e nos adoece.

Maíra Castanheiro
Sou Escritora, Historiadora e tradutora. Aprendiz de jardineira Waldorf. Mãe de Mariaalice, que além de me ter feito mãe, me impulsionou a publicar meu primeiro livro: Para Maria Alice.
Em breve mais livros e mais livre.
Categorias: Singularidade
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